Provocação
Um comentário à entrada anterior levou-me a reflectir um pouco sobre o significado de copiar.
Copiar é uma forma de auto-desqualificação, um reconhecimento de incapacidade para fixar ou compreender um determinado assunto ou aspecto da matéria. Tem ainda a desvantagem de ser um comportamento adictivo: resultando uma vez, passa a haver uma tendência para a maior utilização da estratégia.
Um aspecto curioso tem a ver com o facto de ser uma estratégia de curto prazo (entregar um relatório a tempo; passar à disciplina; terminar o curso) com possíveis consequências a longo prazo, na vida profissional do indivíduo. É uma aceitação da mediocridade, uma recusa da procura da excelência.
Mais: é aceitar jogar o jogo das notas, com regras que não se controlam. É geralmente aceite que as notas obtidas não reflectem o real valor da pessoa como estudante. Há aspectos a considerar que as notas ignoram totalmente, mas que são altamente importantes para a actividade profissional. Como por exemplo a capacidade de trabalhar em equipa ou a capacidade de síntese, essencial à elaboração de relatórios credíveis.
Muitas das disciplinas iniciais de um curso superior fornecem ferramentas de base para o trabalho futuro. A recusa a tentar compreendê-las, o não tentar transformá-las em conhecimento que possamos chamar nosso, porque fruto do nosso trabalho, resultará forçosamente em trabalho extra no futuro ou no uso de estratégias mais ou menos viciadas para não fazer ou passar o trabalho a outros. Não é propriamente um futuro brilhante para um jovem promissor que frequenta neste momento o Ensino Superior.
É, naturalmente, uma escolha individual. Que não se faz sem esforço. Valerá a pena?
Comentário(s)
tenho mesmo de comentar.
:-)
Concordo em absoluto que copiar é sinal de auto-desrespeito.
Lembro-me sempre da cara de um aluno do primeiro ano, a quem fiz esta afirmação e a quem perguntei, a seguir: «confia assim tão pouco em si, na sua capacidade?». tal interrogação não lhe tinha cruzado o espírito. Nem era por isso que o tinha feito. Apenas por ser mais fácil e seguro.
Mas tantas vezes vai ao cântaro à fonte...
Na verdade, há diversas formas de copiar.
Ainda vou fazer um «post» sobre o assunto!
Publicado por: LN | fevereiro 12, 2005 03:40 PM
Devia, LN, porque às vezes é mesmo necessário explicitar o óbvio. Jorge Morais também já escreveu um.
Publicado por: MJMatos | fevereiro 12, 2005 07:35 PM
Copiar no "Conversamos?!"
Indignos
Publicado por: MJMatos | fevereiro 12, 2005 09:46 PM
O significado de copiar...
A verdade é que o vazio que a grande parte dos programas educacionais do nosso sistema de ensino permite a um aluno fazer uma disciplina, cadeira, exame frequência, teste ou relatório a "copiar", a "cabular", ter notas positivas sem que veja isso repercutido na sua formação a longo prazo.
Por mais que possa alegar o contrário.
Um exemplo muito simples: num curso superior um individuo que tem todas as disciplinas feitas à excepção de uma. O individuo fez estágio numa determinada àrea com um aproveitamento muito acima da média (o que lhe confere algum crédito no trabalho desenvolvido), no entanto apenas está à "espera" de passar àquela cadeira. Aquela cadeira que já chamou de "cadeirão", aquela cadeira que já tentou fazer vezes a fio durante o curso.
A minha pergunta, será essa cadeira essencial na formação deste individuo? Um individuo que atravessou um estágio (que à partida deverá ser a prova maior das suas capacidades) com distinção... A solução facil será cabular, fazer a cadeira, seguir a sua vida...
É claro que o copianço é a falta de reconhecimento da capacidades de quem copia, aliás devo dizer que até me repugna o acto... Mas é verdade que é "património nacional". E é também verdade que muita "boa" gente se serve desta "ferramenta" para "avançar" na vida, não sabendo/conseguindo avançar de qualquer outra maneira...
Publicado por: ganda | fevereiro 14, 2005 12:07 PM
Como este é um blogue sobre educação, caro Ganda, gostaria de lhe deixar aqui um reparo: em termos argumentativos, partir de casos particulares para o geral é sempre uma maneira muito fraca de defender as próprias ideias.
Relativamente à minha pretensa alegação, devo informá-lo que não alego, afirmo; são duas coisas muito diferentes.
Não me parece que seja de grande utilidade comentar o seu comentário. Afinal, respondeu a si mesmo, não respondeu? A ideia desta entrada é fazer reflectir as pessoas, o que, no seu caso, parece ter acontecido. Espero continuar a encontrá-lo por aqui, mesmo que as minhas palavras acima lhe possam parecer um pouco ásperas.
Publicado por: MJMatos | fevereiro 14, 2005 01:31 PM
Antes de mais quero apenas cumprimentar todos os que aqui partilham as suas opiniões sobre os mais diversos temas.
Ora bem, copiar...
Para nos entendermos, devo dizer que uma única vez fiz um copianço que passou o exame todo no bolso. Apenas me senti tentado a copiar numa cadeira do curso de bioquímica.
Sim, é certo que a educação no nosso país está num estado miserável, mas não é menos certo que continuamos a "produzir" jovens de grande valor que acabam por triunfar lá fora. É certo que a frustração de várias tentativas para fazer um determinado exame acabam por levar algumas pessoas ao desespero. Sim, tudo isto são argumentos válidos, mas que apenas justificam problemas pontuais. Se repararmos, a sociedade moderna assenta na batota, na trapaça. Vejamos:
1. Futebol: acho que basta dizer futebol para ficar tudo dito;
2. Política: mais um conceito que diz tudo;
3. Concursos públicos: idem;
4. Educação: aqui o caso acaba por ser mais melindroso uma vez que o conceito acaba por ser mais abrangente.
Claro, em todas estas áreas há, e haverá sempre alguém que marca a diferença pelo comportamento exemplar; e haverá sempre que, no polo oposto, mantém o equilíbrio da balança.
OK, mas que quero eu dizer com isto???
Simples: existiram sempre pessoas colocadas nos polos da questão, e a maioria entre os polos.
Eu não me sinto à vontade para copiar por uma questão de principio, mas sei que existem pessoas sem esses problemas. Não posso dizer que me aborrece. Acredito que mais tarde ou mais cedo as contas serão feitas.
Bem, continua a ser dificil para mim manter um raciocínio coerente sem ser com papel e caneta!
Publicado por: William Jack | fevereiro 14, 2005 03:34 PM
Caro MJM um exemplo particular de um caso geral não é má argumentação é simplesmente um exemplo. E repare que não quero dizer que copiar seja algo de positivo, apenas acho que nem sempre copiar significa a perda de informação útil...
Mas não o vejo rebater a minha opinião sobre o vazio que é o nosso sistema de ensino. Talvez devesse comentar...
Publicado por: ganda | fevereiro 15, 2005 03:58 PM
Dar um exemplo é má argumentação? ok...
Apenas quis demonstrar que nem sempre copiar significa perda de conhecimento fundamental para determinada actividade.
É certo que "Muitas das disciplinas iniciais de um curso superior fornecem ferramentas de base para o trabalho futuro", mas não poderá negar que na maior parte das vezes as disciplinas "base" carecem de ligação com as disciplinas que fazem o curso. Sobre o vazio e a falta de ligação do nosso sistema de ensino não fez qualquer comentário... Talvez devesse.
Mas atenção que não sou defensor ou apologista do copianço. Eu não o pratico e não aconselho a ninguém que o faça, quanto a mim é pura perda de tempo.
Publicado por: ganda | fevereiro 15, 2005 04:14 PM
Ainda não comentei porque se desvia do assunto que aqui nos tráz. De facto, costumo manter essa matéria no "Que Universidade?". No entanto, é, em definitivo, algo que merece a pena ser discutido.
Faço-lhe uma proposta, Ganda: porque não prepara um texto sobre o assunto e o coloca no seu blogue? Informe-me e eu faço uma chamada no "MetaBlog do Ensino Superior". Assim terá uma exposição a outros comentadores interessados, muito maior que a que tem aqui.
Publicado por: MJMatos | fevereiro 15, 2005 06:52 PM
Caro Amigo,
E se Bush copiasse modelos de estadistas com ética ( Gandhi,Mandela, etc)?
Hoje deu entrada o Protocolo de Quioto.Contudo os EUA é ainda um dos únicos de mais de 170 países que tentarão cumpri-lo. Além disso o apresidente Bush pretende internamente promulgar o Programa "Clear Skies" que irá enfraquecer a proteção contra o smog e outros produtos gasosos perigosos, elimina proteções para nossos parques nacionais, permite emissões aumentadas do mercúrio tóxico e portanto ignora completamente a ameaça do aquecimento global.Nesse sentido recebi e assinei uma petição da League of Conservative Voters e que está aqui: http://www.care2.com/go/z/21426 Assine e divulgue-a.
Obrigado
Joao Soares
Publicado por: joao soares | fevereiro 16, 2005 05:39 PM
Antes de reflectir sobre o que é realmente copiar, reflictam sobre a real utilidade de um teste escrito...
Que prova um teste escrito? Apenas que quem o faz, das duas uma, ou sabe mesmo fazer testes ou é um craque na arte do copianço. Daí a mostrar o conhecimento real e o progresso da aprendizagem de um indívíduo, a distância é longa.
Porque, convenhamos, um teste escrito só testa mesmo é a capacidade que o indivíduo tem de memorizar carradas de ínformação, arquivá-la de modo eficiente e saber utilizá-la em cerca de 60 minutos, respondendo a questões que lhe são colocadas naquele preciso momento. Como é que isso avalia, no caso da Bioquímica, a capacidade do aluno de estar num laboratório? A capacidade de interpretar resultados? A capacidade de planear correctamente experiências?
Quanto a mim, apenas mostra a capacidade de despejar matéria. Ou de cabular. E para não dizerem que estou a fugir ao tema, quanto a isso a minha opinião está formada: copiar devia ser a excepção, não a regra. Infelizmente, é uma coisa e outra. Uns copiam porque não estão para se dar ao trabalho, desrespeitando todos aqueles que se mataram a estudar (perguntando-se, talvez, para quê), outros porque não sabem fazer testes (o que não quer dizer que não tenham adquirido conhecimentos).
E uma coisa é mais do que certa, o ensino em Portugal, desde o nível mais básico ao superior, devia levar uma volta muito grande. E a falar do ensino superior, porque não começar pelos que realmente não são talhados para ensinar? Mesmo que sejam cientistas brilhantes. Isso não os torna capazes de ensinar. Infelizmente a maioria dos professores do ensino superior não sabem.
Felizmente que há sempre alguns que são a excepção.
Publicado por: Ana | fevereiro 22, 2005 11:17 PM