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janeiro 18, 2006

Descritores de Dublin

O título desta entrada pode parecer pouco claro a quem não está habituado ao "bolonhês" e à reforma que se tem vindo a verificar no Ensino Superior europeu. Pode até parecer distante, mas de facto, vai afectar a vida dos futuros estudantes e também a dos actuais. Como matéria de reflexão, deixo aqui uma citação do Anteprojecto de Decreto-Lei sobre os "Graus académicos e diplomas do ensino superior". A citação é o artigo 5º do referido Anteprojecto, precisamente aquele que, baseado nos Descritores de Dublin, define as competências de um licenciado:

[...]
CAPÍTULO II

Licenciatura

Artigo 5.o

Grau de licenciado

O grau de licenciado é conferido aos que demonstrem:

a) Possuir conhecimentos e capacidade de compreensão numa área de formação a um nível que:

i) Sustentando-se nos conhecimentos de nível secundário, os desenvolva e aprofunde;
ii) Corresponda e se apoie em materiais de ensino de nível avançado;
iii) Em alguns dos domínios dessa área, se situe ao nível dos conhecimentos de ponta da mesma;

b) Saber aplicar os conhecimentos e a capacidade de compreensão adquiridos, de forma a evidenciarem uma abordagem profissional ao trabalho desenvolvido na sua área vocacional;

c) Capacidade de resolução de problemas no âmbito da sua área de formação e de construção e fundamentação da sua própria argumentação;

d) Capacidade de recolher, seleccionar e interpretar a informação relevante, particularmente na sua área de formação, que os habilite a fundamentarem as soluções que preconizam e os juízos que emitem, incluindo na análise os aspectos sociais, científicos e éticos relevantes;

e) Competências que lhes permitam comunicar informação, ideias, problemas e soluções, tanto a públicos constituídos por especialistas como por não especialistas;

f) Competências de aprendizagem que lhes permitam uma aprendizagem ao longo da vida com elevado grau de autonomia.
[...]

Dá que pensar, não dá?

Referências:

Anteprojecto de decreto-lei

Descritores de Dublin (em inglês)

janeiro 08, 2006

Ano novo, vida nova

Estou em silêncio neste blogue há demasiado tempo. Por isso me penitencio. Hoje dei de caras com uma entrevista no Público que me deixou intrigado. Transcrevo-a para aqui para saber o que os meus eventuais leitores acham da matéria:

"A ciência nunca é a preto e branco"

O ensino da ciência faz-se como uma sucessão de factos, como se a ciência não estivesse incluída na cultura. Isso torna-a chata e cria resistências, diz Mark Brake. Por que não usar a ficção científica para a trazer de volta à sociedade?

Aficção científica pode ser usada para aprender ciência? Para alguns, esta ideia pode parecer uma heresia, mas foi o caminho trilhado pelo astrónomo Mark Brake, do Centro para a Educação em Ciência e Astronomia da Universidade de Glamorgan, no País de Gales (Reino Unido). A forma como Carl Sagan falava da busca de vida no Universo e os livros de ficção científica de Isaac Asimov motivaram-no a tornar-se cientista. Agora, é orientador do único curso do mundo que oferece um bacharelato em ficção científica. Usa anéis e um brinco com padrões de joalharia celta, polvilha o discurso com muitas graças e não hesita em dizer que o ensino tradicional da ciência, mesmo nas universidades, é chato e descontextualizado. Aconselha a NASA sobre formas de divulgar a astrobiologia e é também consultor do Museu da Ficção Científica de Seattle, criado por Paul Allen, co-fundador da Microsoft. Passou há pouco tempo por Portugal, para falar de como a curiosidade sobre outros mundos e outros seres inteligentes sempre entusiasmou a humanidade.

PÚBLICO - O que é que se ensina num curso de ficção científica?
MARK BRAKE - A ciência é normalmente ensinada a preto e branco. Mas a ciência nunca é a preto e branco. É a melhor interpretação do mundo natural em determinado momento, não um conjunto de resultados que surgem do nada. Em Glamorgan ensinamos ciência e astronomia como um processo cumulativo, como uma narrativa que segue uma determinada evolução. Os cursos universitários de astronomia costumam ser mentirosos: têm imensa matemática e uns seis meses de astronomia. Os nossos são inteiramente acerca de astronomia. Fala-se de filosofia da cosmologia, da filosofia por trás da teoria do Big Bang, explicações alternativas para o início do Universo.
Há sete anos, pensámos que seria um desenvolvimento natural passar a incluir a maneira como a ficção científica influencia a ciência.
Por exemplo, o astrónomo Johannes Kepler (1571-1630) escreveu um livro chamado Somnium, acerca de um viajante que chega à Lua. A astrobiologia é um assunto interessante, há uma longa tradição de escrita acerca do que se chamava pluralismo e agora se chama extraterrestrialismo. Pluralismo nas democracias liberais é haver mais do que um partido. Na astronomia, é a ideia da existência de vida em muitos planetas. Camille Flammarion, um famoso astronómo francês do século XIX, também escreveu um livro chamado A pluralidade dos mundos habitados. Giordano Bruno, queimado pela Inquisição, também reflectiu sobre a existência de vida noutros mundos.
Os pontos de contacto entre a ciência a ficção científica fazem com que uma influencie a outra. Por exemplo, Leo Szilard [cientista húngaro que convenceu o Presidente Roosevelt, dos EUA, a lançar o projecto Manhattan, de construção da bomba atómica] tinha lido o conto The World Set Free, de H.G. Wells (1914), sobre uma arma atómica, que o influenciou. Com o desenvolvimento da bomba e a Guerra Fria, em que estava assegurada a destruição mútua de todos os blocos se usassem armas nucleares, com o McCarthyismo na América, foi produzida muita ficção científica pós-apocalíptica, como Slaughterhouse 5, de Kurt Vonnegut, Dr. Strangelove, ou algumas coisas de Philip K. Dick.
É muito interessante seguir a história: a ficção científica influencia a ciência, os cientistas criam a bomba, e depois a bomba influencia a cultura em que é escrita a ficção científica.
P - Então o objectivo do curso é mais fazer com que as pessoas entendam a história da ciência, em vez de propriamente ensinar ciência...
MB - Tentamos fazer ambas as coisas. A ciência não é uma coisa terminada. Pode enganar-se muito. A visão aristotélica do Universo, geocêntrica, perdurou por 2000 anos. Os navegadores portugueses e ingleses andaram pelos mares usando um sistema científico que Copérnico mostrou estar errado. É interessante olhar para a ciência desta maneira, ver que pode estar errada e pensar em maneiras de a mudar.
P - Que tipos de pessoa procuram? Com formação científica, ou sem?
MB - Ambos. Acho que procuramos pessoas da Renascença. Isto não é para ser pretensioso, mas pessoas com interesses de ambos dos lados da fronteira da ciência e da arte.
P - E o que faz uma pessoa com formação universitária em ficção científica?
MB - Temos também um mestrado em comunicação da ciência e a primeira licenciatura do mundo em astrobiologia. Os estudantes de ficção científica tendem a ser os que falam melhor. Provavelmente, são os que têm mais imaginação, e os que têm maiores probabilidades de fazer depois o mestrado em comunicação da ciência. Para passar ideias para o público é preciso ter imaginação. Há muitas ideias erradas e é preciso pegar nelas para as ultrapassar. Esperamos formar comunicadores de ciência capazes de as discutir, introduzindo conceitos como hipóteses e verificação dos factos.
Por exemplo, há pouco tempo fizemos uma sondagem, a propósito de uma série televisiva de culto dos anos 60, Dr. Who, que voltou a passar. Pediram-me para escolher 25 mitos da ficção científica que, na imaginação do público, eram factos. Num universo de 2000 pessoas, vimos que 38 por cento dos britânicos acham que é possível viajar no tempo. E 53 por cento achavam que a teleportação (estilo "beam me up, Scotty", da série O Caminho das Estrelas) era possível. O mais popular era a percepção extrassensorial: dois terços da população acreditava. Muitos acreditavam também nos óculos de raios X, sabe, para ver através das roupas. Mas normalmente são os homens que acreditam...
P - Às vezes, a ficção científica é vista como má ciência e má literatura...
MB - Não aceito a ideia de má ciência. Normalmente, é um comentário sobre a ciência e a tecnologia, e sobre o impacte que têm na condição humana. Quanto a ser má literatura, há a ideia de que a ciência e a arte são coisas separadas, e muitas vezes a ciência retrata-se como não cultural. A ciência é objectiva e tem orgulho disso, muitas vezes apresenta-se como praticada do lado de fora da cultura, o que me parece errado. Muitas pessoas olham de lado para a ficção científica por ser entendida como a literatura da ciência.
P - E os cientistas, o que pensam da ficção científica?
MB - Tendem a gostar. Não todos, mas os que tem imaginação. Tenho um colega na universidade, biólogo, que se lhe perguntarem qual foi a maior influência para se tornar cientista responderá "o Super-homem".

(por Clara Barata)

"A ciência nunca é a preto e branco" (acesso condicionado por assinatura electrónica)