Estou em silêncio neste blogue há demasiado tempo. Por isso me penitencio. Hoje dei de caras com uma entrevista no Público que me deixou intrigado. Transcrevo-a para aqui para saber o que os meus eventuais leitores acham da matéria:
"A ciência nunca é a preto e branco"
O ensino da ciência faz-se como uma sucessão de factos, como se a ciência não estivesse incluída na cultura. Isso torna-a chata e cria resistências, diz Mark Brake. Por que não usar a ficção científica para a trazer de volta à sociedade?
Aficção científica pode ser usada para aprender ciência? Para alguns, esta ideia pode parecer uma heresia, mas foi o caminho trilhado pelo astrónomo Mark Brake, do Centro para a Educação em Ciência e Astronomia da Universidade de Glamorgan, no País de Gales (Reino Unido). A forma como Carl Sagan falava da busca de vida no Universo e os livros de ficção científica de Isaac Asimov motivaram-no a tornar-se cientista. Agora, é orientador do único curso do mundo que oferece um bacharelato em ficção científica. Usa anéis e um brinco com padrões de joalharia celta, polvilha o discurso com muitas graças e não hesita em dizer que o ensino tradicional da ciência, mesmo nas universidades, é chato e descontextualizado. Aconselha a NASA sobre formas de divulgar a astrobiologia e é também consultor do Museu da Ficção Científica de Seattle, criado por Paul Allen, co-fundador da Microsoft. Passou há pouco tempo por Portugal, para falar de como a curiosidade sobre outros mundos e outros seres inteligentes sempre entusiasmou a humanidade.
PÚBLICO - O que é que se ensina num curso de ficção científica?
MARK BRAKE - A ciência é normalmente ensinada a preto e branco. Mas a ciência nunca é a preto e branco. É a melhor interpretação do mundo natural em determinado momento, não um conjunto de resultados que surgem do nada. Em Glamorgan ensinamos ciência e astronomia como um processo cumulativo, como uma narrativa que segue uma determinada evolução. Os cursos universitários de astronomia costumam ser mentirosos: têm imensa matemática e uns seis meses de astronomia. Os nossos são inteiramente acerca de astronomia. Fala-se de filosofia da cosmologia, da filosofia por trás da teoria do Big Bang, explicações alternativas para o início do Universo.
Há sete anos, pensámos que seria um desenvolvimento natural passar a incluir a maneira como a ficção científica influencia a ciência.
Por exemplo, o astrónomo Johannes Kepler (1571-1630) escreveu um livro chamado Somnium, acerca de um viajante que chega à Lua. A astrobiologia é um assunto interessante, há uma longa tradição de escrita acerca do que se chamava pluralismo e agora se chama extraterrestrialismo. Pluralismo nas democracias liberais é haver mais do que um partido. Na astronomia, é a ideia da existência de vida em muitos planetas. Camille Flammarion, um famoso astronómo francês do século XIX, também escreveu um livro chamado A pluralidade dos mundos habitados. Giordano Bruno, queimado pela Inquisição, também reflectiu sobre a existência de vida noutros mundos.
Os pontos de contacto entre a ciência a ficção científica fazem com que uma influencie a outra. Por exemplo, Leo Szilard [cientista húngaro que convenceu o Presidente Roosevelt, dos EUA, a lançar o projecto Manhattan, de construção da bomba atómica] tinha lido o conto The World Set Free, de H.G. Wells (1914), sobre uma arma atómica, que o influenciou. Com o desenvolvimento da bomba e a Guerra Fria, em que estava assegurada a destruição mútua de todos os blocos se usassem armas nucleares, com o McCarthyismo na América, foi produzida muita ficção científica pós-apocalíptica, como Slaughterhouse 5, de Kurt Vonnegut, Dr. Strangelove, ou algumas coisas de Philip K. Dick.
É muito interessante seguir a história: a ficção científica influencia a ciência, os cientistas criam a bomba, e depois a bomba influencia a cultura em que é escrita a ficção científica.
P - Então o objectivo do curso é mais fazer com que as pessoas entendam a história da ciência, em vez de propriamente ensinar ciência...
MB - Tentamos fazer ambas as coisas. A ciência não é uma coisa terminada. Pode enganar-se muito. A visão aristotélica do Universo, geocêntrica, perdurou por 2000 anos. Os navegadores portugueses e ingleses andaram pelos mares usando um sistema científico que Copérnico mostrou estar errado. É interessante olhar para a ciência desta maneira, ver que pode estar errada e pensar em maneiras de a mudar.
P - Que tipos de pessoa procuram? Com formação científica, ou sem?
MB - Ambos. Acho que procuramos pessoas da Renascença. Isto não é para ser pretensioso, mas pessoas com interesses de ambos dos lados da fronteira da ciência e da arte.
P - E o que faz uma pessoa com formação universitária em ficção científica?
MB - Temos também um mestrado em comunicação da ciência e a primeira licenciatura do mundo em astrobiologia. Os estudantes de ficção científica tendem a ser os que falam melhor. Provavelmente, são os que têm mais imaginação, e os que têm maiores probabilidades de fazer depois o mestrado em comunicação da ciência. Para passar ideias para o público é preciso ter imaginação. Há muitas ideias erradas e é preciso pegar nelas para as ultrapassar. Esperamos formar comunicadores de ciência capazes de as discutir, introduzindo conceitos como hipóteses e verificação dos factos.
Por exemplo, há pouco tempo fizemos uma sondagem, a propósito de uma série televisiva de culto dos anos 60, Dr. Who, que voltou a passar. Pediram-me para escolher 25 mitos da ficção científica que, na imaginação do público, eram factos. Num universo de 2000 pessoas, vimos que 38 por cento dos britânicos acham que é possível viajar no tempo. E 53 por cento achavam que a teleportação (estilo "beam me up, Scotty", da série O Caminho das Estrelas) era possível. O mais popular era a percepção extrassensorial: dois terços da população acreditava. Muitos acreditavam também nos óculos de raios X, sabe, para ver através das roupas. Mas normalmente são os homens que acreditam...
P - Às vezes, a ficção científica é vista como má ciência e má literatura...
MB - Não aceito a ideia de má ciência. Normalmente, é um comentário sobre a ciência e a tecnologia, e sobre o impacte que têm na condição humana. Quanto a ser má literatura, há a ideia de que a ciência e a arte são coisas separadas, e muitas vezes a ciência retrata-se como não cultural. A ciência é objectiva e tem orgulho disso, muitas vezes apresenta-se como praticada do lado de fora da cultura, o que me parece errado. Muitas pessoas olham de lado para a ficção científica por ser entendida como a literatura da ciência.
P - E os cientistas, o que pensam da ficção científica?
MB - Tendem a gostar. Não todos, mas os que tem imaginação. Tenho um colega na universidade, biólogo, que se lhe perguntarem qual foi a maior influência para se tornar cientista responderá "o Super-homem".
(por Clara Barata)
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